A experiência de andar com dois dinossauros no carnaval foi especial e inesperada. Decidi antes dos blocos que deixaria o acaso decidir minha festa. O fato de Lígia e Talita serem dois dinossauros infláveis de dois metros de altura cada uma foi um acaso ótimo.
Primeiro porque elas eram ponto de referência e isso facilitou que eu encontrasse meus amigos no meio de um belo bloco cheio que já andava a muitos passos do endereço inicial.
Quando eu cheguei, elas dançavam dando cabeçadas infláveis uma na outra dentro de uma roda de gente rindo. Elas se empolgavam em várias músicas, e eu particularmente gostei de assisti-las passando por debaixo da cordinha e falando faraó.
As dinossauras demonstravam desprendimento: estavam dispostas a tirar fotos com crianças, receber bolhas de sabão e espuma, aceitar pisões nos pés e rabos e ainda passar calor do vento quente dentro da fantasia.
Estrela, minha amiga que estava fantasiada de estrela, avisava a quem passava que as dinossauras não tinham dimensão do tamanho do rabo, enquanto Téo, outro amigo, queria monetizar as fotografias jurássicas para que aproveitássemos mais a festa com o dinheiro arrecadado.
Para as dinossauras, no entanto, o comprometimento maior era com a folia. Não houve monetização, apenas um máximo aproveitamento da zoeira com algumas pausas para descanso sem roupa.
Ao baixarem a fantasia inflável, tudo eram panos coloridos sem definição. Num desses momentos, uma moça transeunte ouviu Estrela dizer “vamos, dinossauras!”
Pausa dramática e a transeunte anti-etarista bradou: “O que é isso, moça? Elas são jovens! Porque está chamando de dinossauras? Elas não podem ser tão velhas assim!”. E rimos.
“Não é sobre idade, é a fantasia de dinossauro que elas estão usando!”, o inesperado fez uma cócega na gente como quando a Estrela perdeu a identidade na fila do banheiro e alguém gritou “ué alguém se chama Estrela!”, garantindo a rápida recuperação do documento sem transtornos.
Gosto quando o inesperado faz uma cócega, e é bem isso que o carnaval me traz. Grandes caminhos de cócegas inesperadas em esquinas, suores, pessoas, músicas e gente disposta ao encontro. A disposição de alegria coletiva é uma beleza!
Eu estava vestida de onça e volta e meia minha pochete grudava em alguma meia arrastão. Duas pessoas disseram ser destino, e eu sabia que não. A cara de pau que a alegria motiva é linda, mas o destino só é destino quando a gente quer que seja.
Sei até que em algum momento dessa viagem doida alguém tentou me explicar o conceito de sincronicidade do Jung. Eu ali “meu filho, o povo fala que é sincronicidade porque quer que seja verdade”, e o moço muito sério “mas é o tempo que diferencia desejo de sincronicidade”.
Achei bonito.
As pochetes, meus queridos, não duram tempo o suficiente para serem destinos/sincronicidades nas meias arrastões. São menos de dois segundos e estamos separadas, minha pochete e a meia de sei lá quem.
Só demorei a desatar os componentes carnavalescos na exata vez em que uma pessoa virgem de carnaval estava ao lado e se assombrou com o encontro clássico de meia e pochete. Me senti útil em fazer a introdução (e a saída).
Aceitei todas as cócegas do inesperado. Cumpri todos os acasos. Quem mais vai te trazer dois dinossauros do lado de um corpo celeste?
Feito no Espírito Santo.



